27/04/2026

Volume de recuperações judiciais cresce no 1º tri e volta a bater recorde

Por: Luiza Calegari
Fonte: Valor Econômico
As recuperações judiciais bateram novo recorde no primeiro trimestre deste
ano. Havia, no fechamento do período, um total de 5.931 empresas em processo
de reestruturação no país, o que representa crescimento de 4,4% em relação ao
trimestre anterior e de 22% na comparação anual. Entre janeiro e março, 319
pedidos foram deferidos, que somam R$ 18 bilhões em dívidas.
Os dados são do Monitor RGF de Recuperação Judicial, feito pela consultoria RGF
& Associados. Essa é a 11ª alta consecutiva desde o início da série histórica do
levantamento, que começou a ser feito no segundo trimestre do ano de 2023.
Chamou a atenção o fato de o crescimento ser menos acentuado em relação ao
do último trimestre de 2025. No entanto, segundo a consultora Roberta Gonzaga,
da RGF, essa desaceleração não sinaliza um melhor momento para as empresas.
“O quarto trimestre [de 2025] foi um ponto fora da curva, não esperamos um
movimento de desaceleração contínuo nos próximos trimestres”, diz.
Mauro Rochlin, professor de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), atribui
a dificuldade aos juros altos. “Não faz sentido culpar a atividade econômica, pois
estamos em um cenário de crescimento, a despeito da desaceleração”, afirma.
Segundo ele, o rali dos juros promovido pelo Banco Central (BC) desde o ano de
2024 e a manutenção da taxa Selic em 15% nos últimos meses é determinante
para o mau desempenho das empresas.
Além da alta no volume total de empresas em recuperação, o índice da RGF - que
mede a proporção das empresas em recuperação judicial a cada mil - aumentou
de 2,13 para 2,18, mostrando que a proporção ainda é baixa. A base total de
empresas ativas no país cresceu de 2,66 milhões para 2,73 milhões entre o ano
de 2025 e o primeiro trimestre de 2026.
O setor agropecuário é o que apresenta situação mais delicada, com 14,42
empresas em recuperação judicial a cada mil. Em seguida, aparece a indústria,
com 6,92 empresas; e a construção, energia e saneamento, com 4,08. Em situação
melhor do que a média nacional estão os setores do comércio, com índice de
1,87 empresas em recuperação a cada mil; e serviços, com 1,04.
Na agropecuária, a atividade com maior volume de empresas em recuperação é
o cultivo de soja, com um estoque de 243 companhias buscando solução judicial,
especialmente por exposição à combinação entre custo financeiro elevado, risco
climático, volatilidade de preços e dependência de capital de giro.
Na indústria, a confecção de peças de vestuário, as usinas de açúcar e a fabricação
de embalagens de material plástico continuam liderando o número de empresas
em recuperação, com 46, 41 e 40 unidades, respectivamente. A RGF atribui a
pressão do setor às margens comprimidas e maior custo de financiamento.
No setor de construção, a atividade de incorporação imobiliária continua sendo
o destaque, com estoque de 594 empresas com pedido de reestruturação judicial
deferido. Segundo a RGF, o setor é particularmente sensível ao aumento de juros,
formação de estoque e movimento de vendas, além de ter um ciclo longo de
capital.
Em termos regionais, o Estado de São Paulo continua tendo o maior número
absoluto de empresas em recuperação judicial, com 1.913, seguido por Rio
Grande do Sul (514) e Paraná (488). Proporcionalmente, no entanto, Pernambuco
tem a pior situação, com índice de 4,24 empresas em recuperação a cada mil. Em
seguida, estão Alagoas (4,14) e Mato Grosso (4,07).
A pressão dos juros altos sobre todos os setores da economia vai continuar
empurrando cada vez mais empresas para a recuperação, segundo a análise de
Rodrigo Gallegos, sócio do RGF. “As instituições financeiras restringem o crédito
quando o juro está muito alto, não porque não tenham dinheiro, mas porque
avaliam que é muito mais difícil para a empresa pagar o endividamento”, diz.
Maioria das empresas em recuperação tem problemas operacionais”
— Mauro Rochlin
Segundo ele, os bancos impõem mais condições e exigem mais garantias. “O
apetite das instituições para correr risco é menor”, afirma. Mesmo as empresas
que ainda estão conseguindo financiamento agora, acrescenta, no futuro terão
dificuldades, porque o endividamento com bancos não gera novos retornos, mas
reduz a margem de lucro.
No terceiro trimestre, o valor das recuperações judiciais das 319 empresas que
tiveram pedidos deferidos, de R$ 18 bilhões em dívidas, mostra uma
desaceleração em relação ao quarto trimestre de 2025, mas não representa
necessariamente uma melhora. No fim do ano passado, só a recuperação judicial
da Unigel tinha somado quase R$ 20 bilhões. Segundo Roberta Gonzaga, o
volume total dessas dívidas pode variar muito entre os trimestres, dependendo
do porte das empresas.
Um dos principais casos no período analisado, lembrado pelos especialistas, foi
o do Grupo Fictor, com uma dívida de cerca de R$ 4,3 bilhões. A empresa ficou
conhecida pela tentativa frustrada de compra do Banco Master, liquidado pelo
BC em novembro de 2025 e investigado pela Polícia Federal (PF) por supostas
fraudes financeiras.
Segundo os especialistas, o cenário não vai melhorar enquanto as empresas não
tiverem fôlego financeiro e crédito mais acessível. Rodrigo Gallegos defende que
uma forma de atingir esse objetivo seria algum tipo de subsídio governamental
para setores mais críticos, como o agronegócio. Além disso, oferecer programas
de incentivo à governança nas empresas poderia ajudar.
Para Mauro Rochlin, a maioria esmagadora das empresas que recorre à
recuperação tem problemas operacionais e não dá lucro. “A empresa vinha
registrando prejuízos seguidos, até o momento em que um prejuízo é fatal, e ela
precisa recorrer à recuperação. Mas isso não significa que ela encontrou um novo
modelo de negócios ou que conseguiria consertar o que está errado em dois
anos. Se fosse fácil se reinventar, já teria feito isso antes”, diz.
Nos casos em que não é possível recuperar o negócio, o Judiciário tem estado
mais atento para não protelar a recuperação indefinidamente, completa Vamilson
José Costa, sócio do Costa Tavares Paes Advogados. Segundo o Monitor RGF, a
proporção de empresas que vai à falência após a recuperação se estabilizou em
29%. Os outros 71% conseguiram voltar a operar sem supervisão judicial.
Costa afirma que, aos poucos, é possível apontar um movimento de
“remoralização” dos institutos da recuperação judicial e extrajudicial. “É preciso
trazer o recurso da recuperação de volta ao seu objetivo, que é recuperar o que
é possível recuperar. A lei não foi feita para o que não tem salvação.”
Para os trimestres seguintes, no entanto, segundo os especialistas, a perspectiva
não é de melhora. O corte da Selic de 15% para 14,75% deve ter impacto limitado,
diz Vamilson Costa. “Mesmo que os juros baixassem para 14%, ainda é inviável
para qualquer ramo de negócio.”
Eventual redução dos juros, acrescenta o advogado, também seria eclipsada pela
alta no preço dos combustíveis, fertilizantes e defensivos devido às restrições
causadas pela guerra no Irã, o que torna o cenário especialmente desafiador para
o agronegócio.