01/12/2020

Sistema S poderá ser julgado como repetitivo no STJ

Por Laura Ignacio — De São Paulo
Fonte: Valor Econômico

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) poderá julgar a limitação da base de
cálculo das contribuições ao Sistema S com efeito repetitivo. O ministro
Paulo de Tarso Sanseverino, presidente da Comissão Gestora de
Precedentes da Corte, definirá se o tema deve ser candidato à análise pela
1ª Seção.
O assunto é a segunda discussão judicial de maior impacto para o governo
federal, após a exclusão do ICMS do cálculo do PIS e da Cofins. Em média, o
peso dessas contribuições sobre a folha de pagamentos corresponde a 5,8%
ao mês.
A partir da definição de um recurso repetitivo, a praxe é a paralisação de
todas as ações sobre o tema no país. Após julgado pelos ministros da 1ª
Seção, o entendimento serve de orientação para todos os demais
processos.
O processo que poderá ser julgado pelo STJ é da Bugio Agropecuária,
frigorífico da região de Chapecó (SC). O recurso tenta limitar a base de
cálculo das contribuições para terceiros (Incra, Sebrae, salário-educação e
o Sesi, Senai, Sesc, Senac e Senat) a 20 salários mínimos.
Se a decisão for favorável, representará de 100 a 120 novos funcionários
que a empresa teria condição de contratar a mais, segundo o advogado que
representa a empresa no processo, Jair Marinho Arcari, do Arcari
Advogados Associados. “É um momento oportuno para o julgamento de um
repetitivo para as empresas terem um fôlego. Isso significará desoneração
da folha e, assim, mais chances de contratar mais gente”, afirma Arcari.
A provocação para que o tema seja julgado com efeito repetitivo foi feita
pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN). “Após decisão da 1ª
Turma (REsp 1570980) do STJ sobre o tema, no começo do ano,
percebemos um movimento de todas as grandes empresas tentando usá-la
como precedente em processos novos”, afirma José Péricles Pereira Sousa,
coordenador-geral da atuação da PGFN junto ao STJ. “Enviamos o ofício em
maio, quando já havia mais ou menos 1,5 mil recursos sobre o tema no
Brasil. Daquela data até agora já são mais 7,5 mil em todas as instâncias”,
acrescenta.
Para o procurador, seria importante o julgamento do repetitivo para se
prevenir litigiosidade “e isso não se alastrar mais ainda”. Além disso,
segundo Sousa, será mais seguro para as empresas também. “Porque
senão, o processo vai avançando, chega o momento de cumprir sentença e
depois será preciso devolver valores à União, como vem acontecendo em
relação ao ICMS no PIS/Cofins.”
Sousa afirma que os critérios para o julgamento repetitivo estão presentes
neste processo (REsp 1899549) por ser múltiplo, de mérito e não haver
problemas quanto à sua admissibilidade. Se Sanseverino indicar o processo
para ser julgado como repetitivo, automaticamente será sorteado para um
relator na 1ª Seção, que terá 60 dias para definir se vale a pena afetá-lo. “Se
decidir que sim, por maioria simples, após sete dias de votação virtual, é
feita a proposta de repetitivo para a Seção definir”, explica. O prazo para
julgamento de repetitivo é de um ano.
De acordo com o superintendente jurídico da Confederação Nacional da
Indústria (CNI), Cassio Borges, o julgamento de um recurso repetitivo sobre
o tema seria muito importante para o setor. “Se o STJ reconhecer o
julgamento repetitivo é também o reconhecimento de que ainda é preciso
que a Corte uniformize o seu posicionamento em relação à matéria. E que
é um equívoco dizer que a linha de entendimento da 1ª Turma é pelo limite
a 20 salários mínimos”, afirma.
Borges diz que quando uma empresa entra com ação na Justiça, só entra
contra a União, em que pese a contribuição vá para terceiros como o Sesi e
o Senai. “Por isso, o julgamento de um repetitivo será a oportunidade que
teremos para apresentar nossos argumentos. Vamos solicitar a nossa
participação no processo”, afirma o advogado.
A CNI acata a tese da Fazenda de que o limite a 20 salários não deve alcançar
nenhuma das contribuições sociais. “Mas nossa tese principal é de que os
chamados ‘terceiros’ não abrangem os serviços sociais autônomos, como
do Sesi e Senai”, diz Borges.