Segunda fase da Carbono Oculto mira 'bancos paralelos' do crime organizado no setor de combustíveis
Por: Alexa Salomão Alexa Salomão e Pedro Teixeira
Fonte: Folha de S. Paulo
A força tarefa Fluxo Oculto amplia nesta quinta-feira (28) a ofensiva para asfixiar
a atuação do crime organizado no setor de combustíveis. Agentes cumprem
mandados em instituições de pagamento na região da Faria Lima, principal centro
financeiro do país, além do interior do estado e do Rio de Janeiro.
A segunda fase da Carbono Oculto cumpre 59 mandados de busca e apreensão
envolvendo pessoas físicas e jurídicas em cinco estados: São Paulo (capital, Arujá,
Atibaia, Barueri, Itupeva, Jardinópolis, Mogi das Cruzes, Paulínia, Rafard, Santos,
São José do Rio Preto, Sorocaba e Votorantim), Paraná (Cascavel e Paranavaí),
Mato Grosso do Sul (Iguatemi), Minas Gerais (Belo Horizonte) e Rio de Janeiro
(capital).
As investigações a partir da Carbono Oculto revelaram a existência de seis
fintechs que funcionavam como "bancos paralelos" para movimentar recursos do
grupo, compensar operações financeiras internas e ocultar patrimônio por meio
de fundos de investimento. Segundo os investigadores, as instituições
movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025.
A operação atua na coleta de provas para combater lavagem de dinheiro e
sonegação em operações suspeitas de envolvimento do PCC (Primeiro Comando
da Capital).
A operação é realizada em parceria entre Receita Federal, Ministério Público de
São Paulo, por meio do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime
Organizado), da Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo, da ANP
(Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), da Procuradoria-
Geral do Estado de São Paulo e das polícias Militar e Civil.
As investigações mostram a existência de um esquema sofisticado de lavagem de
dinheiro de ações criminosas e obtenção de lucro elevado na cadeia produtiva
de combustíveis.
Segundo a apuração, o uso de fintechs permitia dissimular os recursos de origem
criminosa. A sonegação fiscal e a adulteração de produtos aumentam os lucros e
causam prejuízos aos consumidores.
Participam da operação 135 auditores fiscais, analistas-tributários e servidores
administrativos da Receita Federal.
As fintechs eram utilizadas como estruturas financeiras opacas, explorando falhas
regulatórias e ausência de mecanismos mais rígidos de compliance e fiscalização.
De acordo com os investigadores, as empresas utilizavam "contas bolsão",
mecanismo que centralizava e depois pulverizava os recursos, dificultando o
rastreamento das transações e a identificação dos beneficiários finais.
As apurações indicam ainda que uma única instituição investigada recebeu mais
de R$ 1 bilhão em depósitos em espécie entre 2022 e 2024, operação considerada
incompatível com a natureza típica de uma instituição de pagamento.
Também foram identificadas movimentações de ao menos R$ 365 milhões em
criptoativos envolvendo empresas suspeitas de lavagem de dinheiro ligada a
outras organizações criminosas.
Segundo a Receita Federal, o esquema ganhou escala em razão de uma brecha
regulatória: até 2025, instituições de pagamento não eram obrigadas a entregar
a e-Financeira, declaração que informa à Receita a movimentação financeira de
clientes.
Sem esse instrumento, órgãos de controle não tinham acesso sistemático às
operações realizadas nessas plataformas. Após a mudança regulatória, mais de
450 instituições passaram a reportar dados à Receita, revelando movimentações
superiores a R$ 10 trilhões entre 2021 e 2025.
"Essas fintechs foram identificadas graças às informações que a Receita passou a
receber em meados do ano passado", afirmou nesta quinta-feira (28) o ministro
da Fazenda, Dario Durigan, em coletiva sobre o tema.
Ele acusou deputados e influencers de direita de atrasarem as novas normas da
e-financeira, dificultando a fiscalização –em janeiro de 2025, parte da direita
alardeou que o governo estaria taxando o pix, o que obrigou a Fazenda a revogar
a norma. Em agosto, a Receita editou resolução semelhante.
Além da frente financeira, a operação também aprofunda investigações sobre
adulteração de combustíveis com uso de nafta petroquímica.