24/02/2026

Indústria brasileira vê alívio com decisão de Trump, mas insegurança persiste

Por: Michael Esquer e Helena Benfica
Fonte: Valor Econômico
A nova tarifa global de 15% anunciada pelo presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, em resposta à decisão da Suprema Corte americana, que declarou
como ilegais as tarifas recíprocas impostas anteriormente, alivia a pressão para a
indústria brasileira, segundo fontes consultadas pelo Valor, mas não elimina por
completo inseguranças no comércio entre os dois países. O Brasil ainda responde
a investigações sob a lei de comércio americana. Elas podem resultar em novas
tarifas, caso a conclusão do julgamento seja desfavorável ao país.
“Trata-se de um passo importante para restaurar maior segurança jurídica nas
relações comerciais bilaterais. Entretanto, é fundamental destacar que a decisão
não derruba todas as tarifas aplicadas pelos Estados Unidos”, diz nota da
Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast).
“A administração americana poderá buscar alternativas jurídicas para reestruturar
parte das medidas anteriormente baseadas na IEEPA [lei de poderes econômicos
de emergência internacional].”
Materiais como aço e o alumínio ainda não deverão ser beneficiados pelas
medidas, já que a tarifa de 50% aplicada sobre esses materiais é baseada na Seção
232 da Trade Expansion Act, a lei de expansão comercial, que trata de segurança
nacional sob ótica comercial e industrial. “No entanto, a decisão afeta setores
consumidores de aço, o que pode ser positivo para a indústria do aço no Brasil”,
disse a Aço Brasil, entidade que representa as empresas brasileiras produtoras de
aço, em nota.
Entre os principais consumidores de aço, está o setor de máquinas brasileiro, que
comemorou a suspensão da alíquota anterior, mas disse que o exportador
brasileiro ainda enfrenta insegurança. “O Brasil foi o país que mais ganhou com
essa mudança”, disse, em pronunciamento divulgado nesta segunda-feira, 23,
José Velloso, presidente-executivo da Abimaq, que representa os fabricantes de
máquinas e equipamentos.
Segundo ele, as inseguranças para os exportadores brasileiros desses produtos
se dão por conta das investigações em curso contra o país sob a Seção 301 do
Trade Act. “O Brasil fez uma defesa muito bem feita lá nos EUA, em setembro do
ano passado. Mas, na nossa opinião, o desfecho desse julgamento não será
técnico, será político”, disse.
Se o resultado do julgamento, previsto ainda para este semestre, segundo
Velloso, for negativo para o Brasil, o país pode ser alvo de tarifa mais alta.
“Inclusive, pode até voltar aos 50%”, afirmou o presidente da entidade. “O
exportador brasileiro tem essa insegurança”, acrescentou.
No caso da indústria de base florestal, papéis e painéis de madeira também foram
beneficiados pela medida. “Embora a decisão tenha efeito imediato
juridicamente, não há uma definição final sobre os efeitos práticos. A Ibá seguirá
acompanhando a questão, certa de que o protecionismo é ruim para o mundo e
não beneficia” os americanos, afirmou Paulo Hartung, presidente da Indústria
Brasileira de Árvores (Ibá), em nota.
“A pergunta agora é quanto tempo dura este cenário”, questiona Rafael
Barisaukas, economista para América Latina na Fastmarkets e professor de
economia na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap). Para ele,
diante das incertezas institucionais que o atrito entre o próprio governo
americano e a Suprema Corte geram, “é mais provável que o mercado fique
retraído à espera de um cenário menos incerto para o comércio”.
Já para a indústria têxtil, a decisão coloca o país em pé de igualdade com o
restante do mundo nas exportações para os EUA, disse a Associação Brasileira da
Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). “Ainda é muito cedo para tirar conclusões
definitivas, porque as mudanças são constantes. Mas não há dúvida de que,
tirando os 40% que só nós estávamos carregando, talvez a Índia um pouquinho,
ficamos nivelados com outros mercados em termos de impacto tarifário das
nossas exportações. Então isso é positivo”, afirmou Fernando Pimentel, diretorsuperintendente
da entidade, em entrevista ao Valor.