19/06/2026

IA pode ameaçar escritórios de advocacia e contabilidade

Por: Alexandra Heal e Ivan Levingston
Fonte: Valor Econômico
Executivos de alto escalão da área de private equity têm alertado para o fato de
que as empresas de serviços jurídicos e de contabilidade estão entre as mais
vulneráveis aos transtornos causados pela inteligência artificial, o que agrava as
preocupações dos grupos de aquisição que investem pesadamente em serviços
profissionais.
O rápido desenvolvimento da IA generativa já impactou as avaliações de
empresas de software, mas investidores de private equity e crédito disseram ao
Financial Times que empresas de consultoria que cobram por hora e dependem
de poucos ativos também correm um risco sério.
“A área de software tem dominado as manchetes, mas a inteligência artificial vai
muito além disso”, disse Kevin Marchetti, diretor de investimentos e chefe de
empréstimos diretos do Man Group nos Estados Unidos. “Auditoria de
requerimentos de indenização a seguradoras, automação de sistemas de
cobrança e recebimento de empresas, gestão de votos por procuração ou
serviços jurídicos... Você realmente é capaz de prever como a IA poderia impactálos.”
Executivos presentes à conferência anual do setor, a SuperReturn, em Berlim,
afirmaram que a tecnologia pode desestruturar empresas em vários setores
financiados por grupos de private equity, depois que transações de aquisição de
empresas de software não foram adiante este ano por causa de temores de que
as novas ferramentas de inteligência artificial pudessem comprometer os
modelos de negócios dessas empresas.
“Minhas desculpas aos advogados, contadores e consultores presentes”, disse
Scott Kleinman, executivo da Apollo Global Management, aos delegados da
SuperReturn. “Vocês vão ver muita pressão.”
O preço das ações da Accenture, a maior empresa de consultoria de capital aberto
do mundo, caiu quase pela metade no último ano, o que dá a dimensão do medo
que os investidores têm de que a inteligência artificial prejudique os grupos de
serviços profissionais.
Executivos afirmaram que grupos de capital privado começaram a evitar novos
investimentos em algumas empresas de serviços profissionais por causa da
incerteza a respeito de suas receitas e avaliações no longo prazo.
“Poucos... estão dispostos a investir em certas empresas de serviços de colarinhobranco
que passam por uma revolução em seus modelos de negócios e estão
mais expostas ao risco de serem substituídas pela inteligência artificial”, explicou
Joana Rocha Scaff, chefe de private equity europeu da Neuberger Berman.
Joana acredita que grupos que prestam serviços de redação, tradução e jurídicos
são particularmente vulneráveis. Segundo ela, embora a inteligência artificial
ofereça eficiência e melhoria de margem, “também existem riscos de transtornos
na receita, em especial se eles cobram por hora trabalhada”.
Alguns investidores avaliam que os grupos de serviços profissionais que não
operam em setores regulamentados estão mais expostos à desestabilização
causada pela inteligência artificial.
“Analisamos empresas de contabilidade que cobram por hora, que consideramos
que estavam especialmente expostas [pois não realizam trabalho de auditoria
regulamentado]”, contou Andrew Sillitoe, coexecutivo-chefe da Apax Partners.
“Por outro lado, o valor de ter suas contas aprovadas por um auditor é muito
maior do que a soma das horas de trabalho necessárias para isso. Nesse caso, a
automação por inteligência artificial deveria ser um fator positivo.”
A desestruturação que a inteligência artificial provoca nos grupos de serviços
profissionais ameaça reduzir os retornos das empresas de private equity que
investiram bilhões de dólares no setor nos últimos anos, atraídas pelo baixo
investimento necessário e pela oportunidade de consolidar grupos menores.
No ano passado, um grupo liderado pela Blackstone adquiriu uma participação
majoritária na Citrin Cooperman da rival menor New Mountain Capital por mais
de US$ 2 bilhões. A New Mountain e a Cinven também compraram participações
nas filiais da Grant Thornton nos EUA, no Reino Unido e na Alemanha.
As empresas de serviços jurídicos também são alvos - em 2023, por exemplo, a
Inflexion fechou o capital do escritório de advocacia britânico DWF. Nos EUA,
grupos de private equity têm desenvolvido estruturas empresariais que lhes
permitem investir em escritórios de advocacia, que tradicionalmente funcionam
como sociedades, com pouco ou nenhum investimento externo.
Executivos afirmaram que estão cada vez mais concentrados em setores como os
industriais, onde as empresas têm ativos significativos e não correm muito risco
de que a tecnologia as torne obsoletas. “A inteligência artificial pode ser valiosa
para escritórios de contabilidade, mas será que pequenos grupos de
contabilidade consolidados conseguirão competir com a KPMG [na
implementação da inteligência artificial]?”
Outros executivos da área de aquisições com investimentos em grupos de
contabilidade disseram, porém, que aqueles que implementarem bem a
inteligência artificial e se adaptarem a novos modelos de receita podem se
beneficiar das mudanças que têm revolucionado o setor.