IA já faz parte da rotina dos advogados brasileiros
Por: Laura Ignacio
Fonte: Valor Econômico
O uso da inteligência artificial (IA) já faz parte da rotina dos escritórios de
advocacia no Brasil. Recente levantamento feito pela Associação dos Advogados
(AASP) revela que 87,4% desses profissionais já utilizam a IA no trabalho e 84,3%
apontam ganho de produtividade com o mecanismo. Contudo, 85,3% defendem
capacitação específica e 90,3% consideram que soluções desenvolvidas
especialmente para o Direito brasileiro são mais seguras e eficientes do que
plataformas de uso geral.
A pesquisa foi realizada para compreender como a IA vem sendo incorporada ao
exercício da advocacia no país. Realizado entre 14 de maio e 14 de julho deste
ano, o levantamento reuniu 1.149 respostas de pessoas associadas à entidade, de
diferentes Estados, faixas etárias e áreas de atuação jurídica - Direito Civil (31,4%),
múltiplas áreas (14%), Direito do Trabalho (13,8%), Direito de Família e Sucessões
(11,6%) e Direito Empresarial (9,7%).
Do total que já utiliza a ferramenta, 62,1% afirmam fazer uso frequente da
tecnologia. Para 84,3% dos profissionais, a IA aumenta a produtividade ao apoiar
atividades como pesquisa jurídica, elaboração de peças, organização de
informações e análise de jurisprudência. A maioria dos advogados acredita que a
tecnologia transformará profundamente a profissão na próxima década (95,6%).
Mas para 75,4% dos entrevistados, as respostas produzidas pela IA são confiáveis
desde que submetidas à revisão humana. Além disso, mais da metade dos
participantes (54%) aponta como maior risco a produção de informações
incorretas pela IA. Em seguida, aparecem o uso sem supervisão humana (23,2%),
a dependência excessiva da tecnologia (14%) e os riscos relacionados ao sigilo
profissional (7,2%).
“Nos últimos dois anos, acompanhamos uma explosão de novas ferramentas,
mudanças na forma de trabalhar, discussões regulatórias, decisões judiciais
envolvendo IA e uma produção acadêmica crescente sobre seus impactos”, diz
Paula Lima Hyppolito Oliveira, presidente da AASP. “Faltava, entretanto, um
componente essencial para esse debate: ouvir quem está vivendo essa
transformação todos os dias”, acrescenta.
Segundo ela, a pesquisa mostra que a adoção da IA tende a se tornar um requisito
básico de mercado. A vantagem competitiva dos escritórios, afirma Paula, estará
na capacidade de integrar tecnologia, pessoas e processos para produzir serviços
jurídicos de maior qualidade, mais estratégicos e mais eficientes.
Na comparação com outros países, para antever tendências, Paula lembra que
grandes bancas dos Estados Unidos e do Reino Unido iniciaram investimentos
em inteligência artificial antes e, por isso, contam com mais soluções voltadas ao
setor jurídico. “Lá as discussões mais avançadas hoje giram em torno de
governança, gestão de dados, novas competências profissionais, validação de
resultados, equipes multidisciplinares e uso estratégico da IA”, diz.
O escritório Machado Meyer usa a IA desde o ano de 2018. “Essa familiaridade
foi importante porque fez com que a gente conseguisse contornar os obstáculos
do boom do Chat GPT”, afirma Sávio Andrade, head de inovação e legaltech da
banca. Por lá, diz ele, o uso da inteligência artificial permeia a atividade do
advogado o dia inteiro, desde quando ele abre o e-mail. “Mas sempre com a
premissa de que a IA é co-piloto e o piloto é o advogado”, acrescenta.
No escritório, segundo Andrade, os advogados usam a IA como auxílio para se
prepararem para uma sustentação oral, para a redação de um documento com
base em dados concretos, com outputs refinados providos pela inteligência
artificial. “Sempre usando um conjunto de ferramentas porque cada uma delas é
melhor para uma tarefa”, afirma. “Já estamos olhando para a integração da IA
com outros sistemas, inclusive de clientes.”
No TozziniFreire, são utilizadas ferramentas desenvolvidas por lawtechs e
legaltechs parceiras, mas é usada especialmente uma plataforma própria de IA
generativa, segundo destaca Patricia Helena Marta, sócia de Tecnologia &
Inovação e Cybersecurity & Data Privacy da banca. “Fizemos extensos testes e
validações antes da liberação para todo o corpo jurídico. Com a abertura da nossa
IA generativa a todos os advogados em 2024, registramos um crescimento de
270% no uso”, diz.
Para esse uso interno mais intenso, foram realizados dezenas de treinamentos,
“porque tecnologia sem adoção qualificada não gera resultado” e, afirma ela, foi
lançado um guia de prompts para os advogados. “Agora, a discussão sobre IA no
Direito mudou de patamar: não se trata mais de adotar ferramentas, mas de
repensar como o próprio serviço jurídico é estruturado e entregue”, diz. “É por
isso que investimos tanto em pessoas, quanto em tecnologia.”