Entidades do Brasil e EUA propõem acordo para evitar novo tarifaço de Trump
Por: Isabella Menon
Fonte: Folha de S. Paulo
A Amcham Brasil, a CNI (Confederação Nacional de Indústrias) e a U.S. Chamber
of Commerce, entidades empresariais do Brasil e dos Estados Unidos, enviaram
nesta quinta-feira (9) uma carta aos governos dos dois países em que pedem a
construção de um acordo de curto prazo para evitar a imposição de novas tarifas
sobre produtos brasileiros, às vésperas da conclusão da investigação comercial
conduzida pelos EUA contra o Brasil sob a Seção 301.
O USTR (Escritório de Comércio dos EUA) já sinalizou um novo tarifaço de 25%.
O órgão tem até o dia 15 de julho para publicar a decisão —a compreensão dos
setores é que se os países tentarem um acordo até a data-limite ainda é possível
reverter o tarifaço, depois fica muito difícil.
O representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que tem conversado
com brasileiros sobre a investigação, mas sinalizou um cenário pessimista. "Ainda
há uma grande distância entre nós, então vocês verão uma decisão final muito
em breve sobre o Brasil", diz.
Empresas como Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Faber-Castell, eBay e Siemens Energy
figuram na lista de companhias que enviaram comentários ao USTR (Escritório do
Representante Comercial dos EUA) pedindo que os Estados Unidos não
implementem a tarifa.
No documento encaminhado nesta quinta, entidades defendem que uma solução
negociada seria a forma mais eficaz de preservar a competitividade e evitar
prejuízos para empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros e americanos.
A carta propõe que Brasil e Estados Unidos iniciem uma negociação em duas
etapas. A primeira seria voltada para temas considerados mais urgentes,
enquanto uma segunda fase ampliaria a cooperação econômica bilateral em
áreas estratégicas.
Entre as prioridades imediatas sugeridas estão a ampliação do acesso a mercados
para produtos ligados à segurança energética, data centers e infraestrutura de
inteligência artificial; maior cooperação regulatória em setores como automóveis
e equipamentos médicos; aceleração da análise de patentes no Brasil e reforço
ao combate à pirataria; além de uma parceria em minerais críticos, com
investimentos em pesquisa, processamento e desenvolvimento de cadeias de
fornecimento consideradas estratégicas.
A carta também defende a prorrogação da moratória da OMC (Organização
Mundial do Comércio), que impede a cobrança de tarifas sobre transmissões
eletrônicas, e a implementação integral do Protocolo Anticorrupção do ATEC,
acordo de comércio e cooperação econômica entre Brasil e Estados Unidos.
Em uma segunda etapa, as entidades sugerem ampliar a agenda bilateral para
incluir temas como economia digital, comércio eletrônico, segurança energética,
inovação, cadeias produtivas, descarbonização industrial, agricultura e facilitação
do comércio.
"Às vésperas do prazo final da investigação, é essencial um esforço concentrado
dos governos do Brasil e dos Estados Unidos para viabilizar um acordo que evite
a aplicação das tarifas e abra espaço para uma agenda mais ampla de
fortalecimento da relação econômica bilateral", afirmou o presidente da Amcham
Brasil, Abrão Neto, em nota.
Pessimismo no resultado
Nesta semana, aconteceram audiências em Washington em que o setor privado
e políticos, como o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pediram
para que o governo dos EUA não apliquem as novas taxas contra o Brasil. O
governo federal não esteve presente e afirma compreender que as audiências são
voltadas para o setor privado e mantém as negociações com os EUA.
Entre os setores que estiveram presentes, houve pedidos para que seus setores
sejam excluídos da taxação. Em geral, o clima entre aqueles que estiveram
presentes não é de esperança. A expectativa de empresários é que o tarifaço
aconteça, o máximo que alguns apostam é que aumente a ampla lista de
exceções.
Enquanto representantes dos setores afetados pediram, em sua maioria, para que
não sejam tarifados, Flávio levou a discussão para o campo político e sugeriu que
se o Brasil for tarifado isso pode favorecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT).
Bruna Santos, diretora do Brazil Institute, que acompanha as negociações entre
Brasil e EUA, compartilha desta expectativa. Ela cita ainda a outra investigação do
USTR, que deve ser definida no dia 24 de julho, sobre trabalho forçado —que
inclui 60 nações, inclusive o Brasil— e já prevê outra tarifa de 12,5%.
"Não tenho expectativa de suspensão das tarifas de 12,5%, apenas de algumas
isenções e recalibragem de algumas tarifas que fiquem muito altas somando os
25% da investigação do Brasil aos 12% da investigação de trabalho forçado."
Santos destaca que "mesmo grandes empresas americanas, com recursos,
presença institucional e capacidade de articulação, estão sendo empurradas a
uma atuação defensiva, fragmentada e reativa". "Em vez de uma estratégia
coordenada, o que se vê é uma lógica de balcão: cada setor tentando garantir
sua exceção, seu acesso e sua proteção."