Empresa global de criptomoedas emprestou R$ 1,5 bi ao Master e agora cobra a dívida na Justiça
Por Jenne Andrade e Luiz Vassallo
Fonte: O Estadão
Uma das maiores empresas do mundo no setor de criptomoedas, a Tether está
processando a Titan Holding, de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por
uma dívida de US$ 300 milhões — o equivalente a R$ 1,5 bilhão. O contrato
financeiro entre as partes foi firmado em março do ano passado, enquanto a ação
para reaver o dinheiro foi aberta há cerca de duas semanas no Tribunal de Justiça
de São Paulo.
A Tether é a criadora do popular “dólar digital” (USDT), uma criptomoeda que
reflete o desempenho do dólar e chega a movimentar US$ 100 bilhões por dia.
Na prática, a empresa é responsável por emitir e administrar a quantidade de
dólares digitais no mercado e, em 2025, lucrou cerca de US$ 10 bilhões. Agora, a
gigante aparece como financiadora da holding de Vorcaro.
Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro não se pronunciou. A Tether disse que o
empréstimo foi concedido há um ano, quando não havia “qualquer indicação
sobre as irregularidades” do conglomerado Master, do qual a Titan Holding faz
parte. Também apontou que os recursos do financiamento foram provenientes
dos lucros da Tether Investments, braço de investimentos da Tether, e não têm
qualquer relação com as reservas em dólar digital.
“A Tether Investments concedeu o empréstimo de boa-fé e, assim como diversos
outros credores, ainda não recebeu o respectivo pagamento”, disse a Tether, em
nota ao Estadão.
No contrato de financiamento, ao qual o Estadão teve acesso, a empresa de
cripto se compromete a fornecer um empréstimo de US$ 300 milhões à holding
de Vorcaro. Segundo a Tether, os pagamentos foram feitos em duas parcelas: a
primeira em 28 de março do ano passado, mesmo dia em que o Banco de
Brasília (BRB) anunciou a intenção de comprar o Master, em uma transação
posteriormente barrada pelo Banco Central; e a segunda, cerca de quatro dias
depois. Na outra ponta, a Titan deveria pagar a dívida com juros em até 12 meses
após a utilização do capital, em 28 de março deste ano.
Entretanto, se houvesse rebaixamento da nota de crédito do Banco Master, a
Tether teria direito de cobrar o valor antecipadamente e de forma integral. A nota
de crédito é uma classificação feita por agências especializadas sobre o “risco de
calote” de uma empresa. Quanto menor a nota, maior a possibilidade de a
companhia não pagar o que deve aos credores.
Segundo a emissora do dólar digital, essa hipótese de vencimento antecipado
ocorreu em setembro do ano passado, quando a agência Fitch Ratings rebaixou
a classificação de risco do Master. Na época, já havia suspeitas de que a compra
do Master pelo BRB poderia não ser aprovada pelo Banco Central. Vista como
uma “tábua de salvação” para o enrolado banco de Vorcaro, a operação, de fato,
não obteve o aval da autoridade monetária e o Master acabou liquidado em 18
de novembro.
A liquidação ativou outra hipótese de vencimento antecipado da dívida, ressalta
a Tether no processo, mas até hoje a credora não viu a cor do dinheiro. Com a
aplicação dos juros, o montante devido subiu para R$ 1,6 bilhão, nos cálculos da
gigante de cripto.
Apesar de a Titan ser a conhecida “holding ostentação” de Vorcaro, em que o
dono do Banco Master reunia investimentos pessoais, o processo da Tether não
cita o executivo. Em vez dele, aponta os diretores da Titan e antigos parceiros de
Vorcaro, Luiz Antônio Bull e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva, como
representantes da holding. A Master Holding Financeira e Master Participações
são apresentadas, também, como devedoras solidárias. Procurada, a defesa de
Antônio Bull não retornou aos questionamentos e a de Ribeiro da Silva não foi
identificada. O espaço segue aberto.
Vorcaro é investigado pela Polícia Federal por gestão fraudulenta do Master. Foi
preso pela primeira vez em 17 de novembro do ano passado, um dia antes de o
BC decretar a liquidação do banco, sob suspeita de venda de R$ 12,2 bilhões em
títulos de crédito podres ao BRB. Em 4 de março deste ano, foi preso novamente
por planejar atos violentos contra opositores. Está, desde então, encarcerado na
Superintendência da Polícia Federal, em Brasília.
Consignados no alvo da Tether
O Banco Master ofereceu as operações de consignado originadas pela instituição
como garantias da dívida com a Tether. Ou seja, se deixasse de pagar os valores
devidos, a empresa de cripto poderia receber todo o faturamento referente à
carteira de consignado do Master, da qual faz parte o Credcesta — a linha de
empréstimos a aposentados e servidores públicos que cresceu na Bahia sob a
sombra de reclamações de fraude.
Os contratos de consignado do Credcesta também integravam a carteira
fraudulenta de consignados vendida ao BRB no ano passado, gatilho das
investigações contra o Master e Vorcaro. No caso da Tether, o contrato estipulava
que as garantias deveriam estar atreladas a operações de consignado
desembaraçadas de problemas.
A empresa de cripto requer que todos os valores decorrentes dessas carteiras
sejam bloqueados e direcionados para pagar a dívida. Caso sejam insuficientes,
que outros ativos sejam penhorados. “Seja determinado o bloqueio (...) de ativos
financeiros depositados em contas bancárias, aplicações financeiras,
investimentos e quaisquer outros ativos financeiros de titularidade das
Executadas Titan, Master Holding e Master Participações”, pede a Tether, no
processo.