Documentos da Receita indicam pagamento de R$ 40 mi do Master a escritório de mulher de Moraes
Por: Thaísa Oliveira, Carolina Linhares e Mateus Vargas
Fonte: Folha de S. Paulo
Documentos da Receita Federal enviados à CPI (Comissão Parlamentar de
Inquérito) do Senado que investiga o crime organizado indicam que o Banco
Master, de Daniel Vorcaro, pagou R$ 40,11 milhões ao escritório da mulher do
ministro Alexandre de Moraes, o Barci de Moraes Sociedade de Advogados, em
2024.
Procurado, o Barci de Moraes disse que "não confirma essas informações
incorretas e vazadas ilicitamente, lembrando que todos os dados fiscais são
sigilosos". O escritório não quis informar qual seria o valor correto dos
pagamentos. Moraes foi procurado, mas não se manifestou até a publicação
deste texto.
Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal),
é uma das sócias do escritório, e admitiu que manteve contrato com o Master.
Os pagamentos aparecem em uma declaração de Imposto de Renda do Master,
que teve seu sigilo fiscal quebrado pela CPI do Crime Organizado.
O contrato do Master com o escritório Barci de Moraes foi assinado em 2024.
Previa o pagamento mensal de R$ 3,5 milhões, num total de R$ 129 milhões em
três anos, segundo informações divulgadas pelo jornal O Globo.
Os dados da Receita obtidos pela Folha mostram que o banco declarou 11
pagamentos mensais de R$ 3.646.529,72 ao escritório em 2024, totalizando R$
40.111.826,92. Sobre esses pagamentos, o Master informou ter recolhido R$
2.466.877,38 em impostos retidos na fonte.
Nesta terça-feira (7), durante a sessão plenária do Senado, o relator da CPI,
senador Alessandro Vieira (MDB-SE), anunciou que os dados haviam sido
entregues à comissão. Ele afirmou que a Receita Federal teria enviado dados
incompletos sobre o banco e que a complementação das informações chegou
apenas na segunda (6).
"Mesmo com a quebra de sigilo aprovada pela Comissão Parlamentar de
Inquérito e não suspensa pela Justiça, a Receita Federal do Brasil mandou os
dados incompletos. Foi preciso solicitar a reiteração, a complementação, para que
chegasse o dado bancário que comprova o recebimento e a dedução de impostos
pelo escritório da doutora Viviane Barci. Só em um ano, R$ 40 milhões recebidos.
Contraprestação de serviço? A própria doutora Viviane já publicizou: nada que
justifique esse valor", disse o senador.
O contrato do Master com o escritório previa 36 pagamentos, mas foi
interrompido em novembro de 2025, quando a instituição de Daniel Vorcaro foi
liquidada pelo BC (Banco Central) e o ex-banqueiro foi preso.
A defesa de Vorcaro também foi procurada pela reportagem, mas não se
manifestou.
No mês passado, o Barci de Moraes confirmou que prestou serviços de
consultoria e atuação jurídica ao banco entre fevereiro de 2024 e novembro de
2025, período em que realizou 94 reuniões de trabalho. De acordo com o
escritório, 79 delas foram presenciais, na sede do Master.
O Barci de Moraes diz ainda que produziu 36 pareceres e opiniões legais sobre
compliance, regulação, questões trabalhistas e previdenciárias, entre outros
temas.
Afirmou também que a contratação pelo banco envolveu o trabalho de 15
advogados e ainda serviços de outros três escritórios especializados em
consultoria.
Disse que a equipe jurídica ajudou a implementar o novo código de ética e
conduta do banco e que nunca conduziu nenhuma causa no âmbito do STF.
Também nesta terça-feira, Vieira teve uma reunião com o presidente do Senado,
Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para pedir a prorrogação da CPI do Crime
Organizado, mas a resposta foi negativa. Com isso, a comissão será encerrada na
próxima terça-feira (14), com a votação do relatório final.
Segundo Vieira afirmou à imprensa, Alcolumbre preferiu não estender a CPI em
meio ao período eleitoral, o que o senador classificou como um "desserviço para
o Brasil".
Em dezembro, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, determinou o
arquivamento de um pedido de investigação sobre a possível atuação de Moraes
no caso Master. O autor era o advogado Enio Martins Murad.
Na ocasião, Gonet disse não ter vislumbrado "qualquer ilicitude" que justificasse
a intervenção da Procuradoria-Geral. Disse que não seria de sua competência "a
ingerência em negócios jurídicos firmados entre particulares".