10/07/2026

Cresce o interesse de empresas brasileiras em ter operação industrial no Paraguai

Por: Michael Esquer e Stella Fontes
Fonte: Valor Econômico
Empresas brasileiras de diferentes setores instalaram unidades fabris no Paraguai
nos últimos anos e, agora, um número crescente de companhias tem se
informado e avaliado seguir o mesmo movimento. O Regime de Maquila
paraguaio, de tributação simplificada, e encargos trabalhistas mais baixos
despertaram o interesse de grupos nacionais, que enxergam no país vizinho a
chance de recuperar margens e se tornar mais competitivos, também
influenciados pelo fim de incentivos fiscais previsto na reforma tributária.
O Grupo Wyda, conhecido fabricante brasileira de embalagens de papel alumínio
e filme de PVC, e a Fadel, empresa de logística e transporte rodoviário de cargas,
controlada da JSL, chegaram ao Paraguai em 2019 e estão no grupo dos que
operam no país vizinho há mais tempo. Lupo e Döhler, do setor de confecção e
vestuário brasileiro, são casos mais recentes.
Entre os que avaliam seguir o movimento estão Adere, fabricante de fitas
adesivas; Proeletronic, de eletrônicos para televisores, conversores e roteadores;
e Bralyx, de máquinas e equipamentos para a indústria alimentícia.
Outras empresas já buscaram informações sobre os benefícios de operar no país
vizinho, incluindo Cacau Show, Bauducco e Bom Sabor, além de multinacionais
como Stepan Química e Ajinomoto, apurou o Valor. No mês passado, enviaram
representantes a evento em São Paulo que discutiu investimentos no Paraguai.
“O Brasil tem um nível muito mais industrializado e o Paraguai está oferecendo
vantagens fiscais, o que coincide com o interesse das empresas brasileiras de
participar do comércio mundial de forma mais competitiva”, disse Luiz Fernando
Ávalos, cônsul-geral do Paraguai em São Paulo.
O interesse surgiu principalmente porque o Regime de Maquila permite que
empresas com fábricas no Paraguai, produzindo sob contratos de exportação,
paguem tributo único de 1% sobre o valor agregado localmente. No formato de
produção para exportação, máquinas e matérias-primas usadas na produção
também podem ser importadas sem impostos. Lucros e dividendos podem ser
transferidos isentos de taxação.
Ao mesmo tempo, o Brasil, com a reforma tributária, caminha para a simplificação
e o fim da guerra tributária entre Estados, ao estabelecer a cobrança onde ocorre
o consumo e não na sede da empresa, eliminando a vantagem de estar em
determinada região somente por causa dos benefícios tributários.
O regime tradicional de tributação paraguaio também costuma custar menos
comparado aos vizinhos do Mercosul, segundo as empresas. Fora do Regime de
Maquila, o país adota o chamado “triplo 10”, que fixa em 10% os impostos sobre
valor agregado e renda das pessoas jurídica e física.
“Os gastos com mão de obra acabam sendo quase 30% mais baixos no Paraguai”,
afirmou Oscar Mersán de Gásperi, presidente da consultoria paraguaia M360.
Segundo levantamento da empresa, 363 companhias operam sob o Regime de
Maquila desde 2000 e o Brasil responde por cerca de 70% do total, ou 254.
A consultoria já assessorou cerca de 40 empresas brasileiras de médio porte nesse
processo de internacionalização. “A diferença, agora, é que grandes empresas
estão analisando esse movimento”, disse, citando Lupo e Döhler. A primeira
investiu cerca de R$ 30 milhões para instalar planta de meias no Paraguai em
2025 e a segunda anunciou neste ano que abrirá a primeira unidade fabril fora
do Brasil no país vizinho.
À reportagem, a Lupo disse que quis fortalecer a competitividade diante de
produtos importados, sobretudo da China. A operação paraguaia, informou, está
em fase de evolução e consolidação. “Essa unidade não nasceu para substituir
nenhuma planta em operação no Brasil. Ela foi desenvolvida para acrescentar
capacidade produtiva ao grupo, com mais volume de produção e custos
competitivos frente aos produtos importados”, afirmou Carlos Alberto Mazzeo,
presidente da companhia, em nota.
A unidade abastece, principalmente, o mercado brasileiro, com produtos das
marcas do grupo Lupo e com produtos para outras marcas de roupas (“private
label”). “Essa modalidade [‘private label’] vem crescendo de forma sustentável, e
a operação no Paraguai contribui para atender essa demanda com maior
competitividade”. No momento, disse, não existem planos de transferir novas
linhas de produção para o país.
O grupo Wyda produz rolos de papel alumínio no Paraguai, segundo país fora do
Brasil para o qual o grupo avançou. “Em termos de mão de obra, diria que no
Paraguai ela chega a ser 50% mais barata do que no Brasil”, afirmou Roberto
Carvalho, diretor-executivo do grupo, que também opera na África do Sul e nos
Estados Unidos.
Ainda neste ano, a companhia pretende expandir a produção para filmes de PVC,
bobinas picotadas e embalagens descartáveis de alumínio. Questionado se isso
poderia reduzir a equipe e a operação brasileira, a empresa disse que não, e que
o Brasil segue sendo sua maior operação. “Seria um incremento de produção”,
afirmou Carvalho.
O caso da Fadel é diferente. A controlada da JSL não é do segmento da indústria,
mas de transporte, e foi convidada a operar no Paraguai. O convite veio da AB
InBev, controladora da Ambev, para atender à distribuição da cervejaria Cervepar
naquele país, outra controlada da multinacional, disse Renato Fonseca, diretor
financeiro da empresa.
Segundo o executivo, a Fadel não aderiu ao Regime de Maquila e opera sob o
regime tradicional, mas ainda assim vê vantagens. “Em segurança jurídica, do
ponto de vista fiscal e trabalhista, é muito mais simples operar lá.”
Com faturamento anual de cerca de R$ 550 milhões e com concorrentes como a
americana 3M, a Adere disse que os impostos podem alteram planos de negócios.
“O aumento da carga tributária com a reforma e a ameaça da redução da jornada
de trabalho estão nos deixando muito preocupados”, disse Luis Gustavo,
presidente.
Caso a intenção de ir ao Paraguai siga adiante, afirmou, o plano é começar em
pequena escala. “[Pensamos em] Começar com uma [máquina de transformação]
para conhecer o ambiente e entender como é operar no Paraguai. Se realmente
for uma experiência boa, podemos ampliar o investimento”, acrescentou.
Para Roberto Sakakibara, diretor financeiro da Proeletronic, o Regime de Maquila
é ponto de interesse, mas não único. “Indica a possibilidade de operação fabril
[no Paraguai], o que é nosso principal ponto, mas também estamos abertos para
outras análises.”
Com faturamento anual de cerca de R$ 100 milhões, a empresa tem concorrentes
como Intelbras e Multilaser. “O Paraguai, hoje em dia, é uma opção real para
nossa viabilidade financeira”, afirmou.
A M360 disse que assessora neste momento cerca de mais 10 empresas
brasileiras interessadas em aderir ao Regime de Maquila. “Tem do setor de
eletrodomésticos, autopeças, têxtil e calçados.” Gásperi não abre as marcas
interessadas, mas disse que há, entre elas, conhecidas do público brasileiro.
Combinadas aos incentivos governamentais, extensas áreas de plantio de
eucalipto no país chamaram a atenção de investidores em celulose e papel, e já
asseguraram investimento milionário por parte de empresas brasileiras, caso da
Sudati, fabricante e exportadora de compensados de madeira. O grupo firmou
em maio acordo estratégico, com previsão de investimentos de US$ 215 milhões,
com a Paracel, que planeja instalar uma fábrica de celulose, de US$ 2,8 bilhões,
no norte do Paraguai.
“Ambiente econômico e político mais estável [que nos países vizinhos] e custos
mais baixos de energia, mão de obra e fiscal têm atraído muitas empresas
brasileiras interessadas em se instalar no país”, disse Flavio Deganutti, presidente
da Paracel, cujos sócios são paraguaios e europeus. “As pessoas olham para o
Paraguai da fronteira [com o Brasil] e não tem uma visão real do país”.
Da própria Paracel nasceu uma zona franca, que concede o benefício de
recolhimento de imposto único, de 0,5% sobre as receitas, por 30 anos. As
empresas que se instalarem na área de concessão da Paracel terão os mesmos
benefícios. Além da Sudati, a companhia já tem acordos de investimento com
mais duas empresas brasileiras e outra nórdica.
O caminho até chegar ao país, entretanto, não é simples, tampouco indicado para
qualquer empresa. E também há quem diga que é preciso ter cautela para não
deixar que euforia ou fatores políticos distorçam a decisão.
“Muito por conta de empresas famosas terem feito esse movimento, acabou se
transformando em uma super euforia”, disse Guilherme Rocha, sócio da área
tributária do escritório Raphael Miranda Advogados (RMA), que afirmou perceber
mais sondagens sobre o tema do que decisões de fato de investimento. O
assunto, afirmou, furou a bolha jurídica e tem sido debatido de forma superficial.
Setores de maior complexidade logística e com necessidade de condições de
transporte específicas, disse ele, podem enfrentar processos mais difíceis ou até
inviáveis. “Não é para todo mundo. Isso é um ponto muito importante de abordar.
Tivemos um cliente de sucos naturais e de água de coco, produtor de seus
próprios insumos, que percebeu que os produtos perderiam muito em sabor e
aroma indo para o Paraguai para ser embalados e depois voltando [para o Brasil].
A cadeia de contêiner precisaria ser super-resfriada, tornando-se inviável em
termos de custos e de qualidade mesmo.”
Empresas instaladas em regimes especiais no Brasil, como a Zona Franca de
Manaus ou sob incentivos da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste
(Sudene) e da Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia),
afirmou, também poderiam ter “empate” financeiro.
A disponibilidade de mão de obra qualificada e gargalos de infraestrutura
também precisam ser analisados. “Vale muito olhar caso a caso, para entender se
o ganho tributário e financeiro supera até a questão dos produtos em si”,
completou Rocha.
Procurada, a Cacau Show disse que a participação no evento em São Paulo faz
parte da rotina de estudo de novos cenários. Tambem disse que avalia
regularmente potenciais oportunidades para expansão de frentes de negócios.
“A Cacau Show reforça que o centro de seu negócio, estrutura fabril e
compromisso com o desenvolvimento socioeconômico permanece consolidado
no Brasil”, informou, em nota.
A Ajinomoto disse que acompanha oportunidades de expansão na América
Latina, onde já opera, além do Brasil, na Argentina, na Colômbia e no Peru. “O
monitoramento de novos mercados faz parte da estratégia de negócios da
companhia, sem que haja, no momento, qualquer plano concreto em andamento
no Paraguai”, afirmou, também em nota.
Bralyx, Bauducco, Stepan Química e Bom Sabor não comentaram.