Grandes bancos devem ter lucro de R$ 26,7 bilhões
Por: Álvaro Campos e Lais Godinho
Fonte: Valor Econômico
Os grandes bancos privados de capital aberto devem apresentar crescimento no
lucro do quarto trimestre, com o crédito ainda firme - embora em desaceleração
- e um aumento contido das provisões. A exceção deve ficar por conta do Banco
do Brasil (BB), que ainda tende a se mostrar penalizado pela inadimplência no
agronegócio.
Além dos resultados em si, os investidores estarão de olho nas projeções
(“guidance”) que serão fornecidos pelos bancos para este ano, diante do
esperado ciclo de queda da Selic e do desempenho geral da economia, tendo
em vista as eleições presidenciais.
Segundo a soma da média de estimativas de oito casas consultadas pelo Valor,
Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e BB devem registrar, juntos, um lucro de
R$ 26,703 bilhões no quarto trimestre de 2025. Se confirmado, o resultado
representa alta de 3,2% em relação ao terceiro trimestre e retração de 9,5% ante
os últimos três meses do ano anterior, puxada pelo BB. A temporada começa
na quarta-feira, com as divulgações de Santander e Itaú.
De forma geral, os analistas consideram que o contexto é positivo para os
grandes bancos. Os volumes de crédito estão saudáveis, a inadimplência, sob
controle e há crescimento de receitas de tarifas, beneficiadas também pela
sazonalidade. Os principais riscos são uma eventual deterioração acelerada na
qualidade dos ativos e questões regulatórias que podem afetar índices de capital.
Para Bernardo Guttmann, chefe do setor financeiro da área de análise da XP,
deve ser um trimestre “bastante previsível”. “É uma fotografia de resiliência,
mas com assimetrias importantes entre os quatro bancos incumbentes”, avalia.
Segundo ele, do lado macro, o sistema financeiro ainda se beneficia de um
mercado de trabalho “relativamente sólido”, que ajuda a conter a inadimplência,
em especial no varejo, embora os juros altos ainda sejam um fator de pressão.
“Esperamos que as instituições financeiras brasileiras divulguem tendências
operacionais mistas para o quarto trimestre, mas forneçam uma visão
construtiva para 2026, apoiada por juros menores e um cenário de crédito
benigno”, dizem os analistas do Bank of America. “O cenário macroeconômico
e as projeções iniciais para 2026 indicam, em nossa avaliação, um crescimento
de lucros de dois dígitos”, afirma o Itaú BBA.
No fim do ano passado, os CEOs dos grandes bancos apontavam que o cenário
para 2026 era de cautela, como sempre acontece em ano eleitoral. No terceiro
trimestre, várias instituições registraram provisões para “casos específicos” na
carteira de crédito corporativa. Nenhum deles citou nomes, mas entre as
empresas com dificuldades nos últimos meses estavam nomes como Ambipar,
Braskem e Raízen. De qualquer forma os executivos afirmaram se tratar de
situações pontuais e descartaram uma crise de crédito.
As preocupações com essas empresas ficaram um pouco de lado, mas a crise
do Banco Master e os desdobramentos das operações Compliance Zero e
Carbono Oculto, da Polícia Federal (PF), podem gerar incertezas. Dezenas de
fundos estão sendo investigados por possíveis ligações com o crime organizado
ou esquemas de fraudes gerados pelo Master, com implicações para empresas
listadas, relacionadas principalmente com o empresário Nelson Tanure.
Sistema se beneficia de um mercado de trabalho sólido, que ajuda a conter piora
mais forte da inadimplência”
— Bernardo Guttmann
Além disso, com o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) tendo de desembolsar
R$ 47 bilhões para honrar as garantias do conglomerado do Master, será preciso
recompor a liquidez do fundo, o que terá um preço elevado para os grandes
bancos, que possuem uma base elevada de depositantes. A depender de como
será feito esse reembolso, certas instituições podem ter de desembolsar alguns
bilhões de reais e fontes do setor não descartam que isso possa ter um impacto
no custo do crédito para o consumidor final.
O Itaú deve seguir registrando lucro recorde, com um resultado de R$ 12,172
bilhões, uma alta anual de 14%, na média das projeções. Segundo o Goldman
Sachs, a receita de tarifas deve vir forte, beneficiada pela sazonalidade, mas a
expectativa é que a margem financeira cresça um pouco menos que a carteira.
As despesas devem ficar basicamente estáveis, ampliando a alavancagem
operacional. “O ROE [retorno sobre o patrimônio líquido] deverá aumentar
para 23,7%, contra 23,3% no terceiro trimestre e 22,1% no quarto trimestre de
2024, e continua sendo a maior rentabilidade da nossa cobertura de bancos
tradicionais.”
Na outra ponta, BB deve ter queda anual de 57,8% no lucro, para R$ 4,041
bilhões. A XP aponta que, apesar dos fortes desembolsos relacionados com a
MP 1314, que liberou até R$ 12 bilhões para renegociações no agronegócio, o
impacto no quarto trimestre será pequeno. Mais uma vez, as áreas “corporate”
e agro devem pesar na qualidade da carteira de crédito e limitar a capacidade de
geração de lucro.
“A leitura é que a recuperação do Banco do Brasil tende a ser mais lenta e com
menos visibilidade no curto prazo”, diz Guttmann. A expectativa é que a
recuperação comece no quarto trimestre, mas ainda muito tímida. A visibilidade
deve melhorar a partir do segundo trimestre de 2026, com o vencimento de
safras originadas em 2025.
O Bradesco, com lucro de R$ 6,410 bilhões (alta de 18,7%), seguirá em
recuperação, mas os analistas do Citi apontam que pode haver debate entre os
investidores sobre o ritmo. “Esperamos que as tendências do Bradesco
mostrem a melhoria gradual definida como meta pelo banco, com a
continuidade do avanço estrutural nas receitas. Consideramos que os
investidores poderão questionar mais o ritmo de melhoria do que a sua direção,
especialmente porque esperamos que o custo do risco marginalmente mais
elevado e os investimentos desacelerem o ritmo de expansão.”
No caso do Santander, a previsão é de lucro de R$ 4,080 bilhões, com expansão
de 5,8%. Para o Itaú BBA, o banco deve ter crescimento moderado da carteira,
impulsionado por fatores sazonais, com expansão anual em torno de 3%,
refletindo uma postura mais seletiva. “As margens financeiras com clientes
devem permanecer estáveis, enquanto resultados negativos da tesouraria devem
pressionar o resultado de intermediação financeira. O custo de risco tende a
ficar estável, apesar de leve alta da inadimplência”, diz o banco.
O Nubank - que não entra na soma dos quatro grandes - apresentará lucro de
US$ 901,5 milhões, um aumento anual de 47,8%. Em entrevista no fim do ano
passado, o fundador e CEO global da fintech, David Vélez, disse que a licença
de banco que planeja obter no Brasil não mudará em nada a operação. “O
capital é o mesmo, índice de Basileia é o mesmo, a licença de banco [no Brasil]
não muda nada”, disse. Segundo ele, o Nubank só fez o pedido ao Banco
Central por causa da nova regra segundo a qual quem não é banco não poderá
usar “bank” no nome.