FT: Empresas em dificuldades financeiras compram bitcoin para salvar 'valuation'
Fonte: Valor Econômico
Uma série de empresas em dificuldades começou a comprar criptomoedas
para tentar reverter a situação financeira fragilizada. O fenômeno, conhecido
como “tesouraria de criptomoedas”, se aplica àquelas companhias que
decidiram seguir o exemplo da fabricante de softwares Strategy, de Michael
Saylor, e priorizar a emissão de dívida para comprar ativos digitais.
A empresa de Saylor iniciou suas compras de bitcoin em 2020, quando o
negócio vivia os impactos da pandemia e buscava uma alternativa para proteger
o caixa da política de afrouxamento monetário do Federal Reserve (Fed,
banco central americano). Na época, as ações eram negociadas por volta de US$
12. Hoje, 628.791 bitcoins depois ( US$ 71 bilhões), cada ação está cotada a
US$ 395, no que representa uma alta de mais de 3.000% em cinco anos.
A Strategy está avaliada em US$ 115 bilhões, quase o dobro do valor total das
reservas de bitcoin que a empresa possui. Na semana passada, a companhia
adquiriu mais US$ 2,5 bilhões na criptomoeda.
Para o investidor, as ações de empresas de tesouraria de bitcoin são uma forma
de se expor à moeda digital sem adquiri-la diretamente. Isso é importante
porque alguns investidores institucionais não podem comprar estes tokens. No
Reino Unido e no Japão, por exemplo, até mesmo os fundos negociados em
bolsa (ETFs) de criptomoedas foram banidos. Além disso, é possível ganhar
com a arbitragem entre o imposto de ganho de capital sobre ações versus cripto.
Com o sucesso da Strategy e o apoio vocal do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, ao setor de criptoativos, um número crescente de empresas
passou a adotar o modelo da Strategy.
Empresas de biotecnologia, mineradoras de ouro, redes de hotéis, uma
fabricante de veículos elétricos e uma produtora de cigarros eletrônicos estão
entre as empresas que correm para comprar tokens de criptomoedas. Muitas
dessas companhias admitem que foram atrás do modelo por estarem em
dificuldades.
É o caso da Sequans Communications, que captou US$ 384 milhões em
emissão de dívida e ações para comprar bitcoins. A notícia fez com que as ações
da empresa disparassem 160%.
Atualmente, 154 companhias de capital aberto fizeram algum tipo de
levantamento de capital para comprar criptomoedas. Combinadas, essas
empresas levantaram US$ 98,4 bilhões para a aquisição de ativos digitais. A
popularização do modelo chegou a criar uma nova métrica: os “bitcoins por
ação”. A ideia é comprar mais criptomoedas e mais rápido para que os
investidores indiretamente tenham um maior percentual de criptomoedas por
cada ação que possuem em carteira.
O “timing” da adoção desta nova estratégia vem justamente em um ano no qual
o bitcoin bateu sua máxima histórica. A disparada da criptomoeda faz com que
investidores no mundo inteiro queiram entrar neste mercado pelo medo de
perder uma grande oportunidade.
No entanto, o FT nota que a onda das “tesourarias de criptomoedas” começa
a dar sinais de ser uma bolha. Brian Estes, executivo-chefe da Off The Chain
Capital, disse ao jornal que o movimento se parece muito com a bolha da
internet em 1998.
Já Eric Benoist, especialista em tecnologia e dados no banco de investimento
Natixis CIB, aponta que o risco do modelo é o bitcoin despencar de preço. O
jornal destaca que, em um cenário assim, os preços das ações também cairão e,
se as empresas não conseguirem pagar os credores dos títulos emitidos para
comprar cripto, os investidores acabarão perdendo dinheiro.
Além disso, há também o risco de que as empresas com negócios além da
tesouraria cripto sofram com a concorrência de prioridades, conforme notou
um sócio da Dragonfly Capital.
Outro ponto de destaque é que as tesourarias estão expandindo seus horizontes
a buscar outras criptomoedas para colocar no caixa corporativo além do bitcoin.
O FT cita a ReserveOne, um negócio de US$ 1 bilhão
financiado por investidores que incluem as corretoras de criptomoedas Kraken
e a Blockchain.com, que pretende comprar bitcoin, ether e solana. Além dela, a
EtherMachine captou US$ 1,5 bilhão para comprar a moeda digital da
blockchain Ethereum.