05/02/2026

Bets estão tirando dinheiro do consumo e dos shoppings, diz associação

Por Circe Bonatelli (Broadcast)
Fonte: O Estadão
Empresas de apostas usam técnicas para "enganar cérebro" e gerar dependência
nos usuários; impactos são graves para a saúde mental. Crédito: Rodolfo Furlan
Damiano
A consolidação dos sites de aposta, as chamadas bets, afetou o comércio no
Brasil, na visão do presidente da Associação Brasileira de Shopping Centers
(Abrasce), Glauco Humai. “As bets estão tirando, sim, dinheiro do consumo e dos
shoppings” afirmou, em entrevista à imprensa.
As bets movimentam em torno de R$ 30 bilhões por ano, um volume de recursos
relevante, na visão do presidente da associação de shoppings. “As pessoas que
estão com pouco dinheiro, muito endividadas e ainda jogando nas bets têm mais
dificuldade para comprar”, assinalou.
Outro fator de concorrência para os shoppings é o avanço do comércio
eletrônico, cujas entregas estão mais rápidas e com cobertura em mais
localidades do País. “Antes as pessoas pegavam o carro para ir ao shopping, mas
hoje podem comprar certos itens pela internet”, admitiu.
Por outro lado, os shoppings se aperfeiçoaram, indo além das compras, e
reunindo também opções de lazer, alimentação, serviços e lazer. Operações como
academias, clínicas médicas, centros de estética, por exemplo, estão mais comuns.
O tempo médio de permanência dos visitantes nos shoppings subiu para 80
minutos, um recorde. A média dos últimos anos estava próxima de 73 minutos,
enquanto na pandemia ficou abaixo de 30 minutos.
Em meio a esse conjunto de fatores, Humai disse que o crescimento de 1,2% das
vendas em 2025 foi positivo. “O crescimento poderia ter sido maior que 1,2%,
mas o ano foi confuso. O juro foi muito alto no ano passado, pode ter tirado um
pouco do afã dos lojistas em crescer. Mas contamos com o aumento do emprego
e da massa salarial, o que ajudou as vendas.”
O presidente da Abrasce notou ainda que os 81 shoppings inaugurados desde
2020 — quando atravessaram a pandemia — ainda estão em fase de
amadurecimento, com atração de consumidores e lojas. Portanto, com vendas
abaixo do potencial. “Isso puxa a média de vendas do setor para baixo, mas tende
a mudar quando eles amadurecerem”.
Faturamento de 2025
O faturamento dos shoppings centers no Brasil no ano passado totalizou R$ 200,9
bilhões. O crescimento de 1,2% ficou um pouco abaixo do inicialmente previsto
para este ano, que era de 1,6%. O dado também foi inferior ao resultado de 2024,
ano em que houve elevação de 1,9% nas vendas do setor. Ainda assim, o volume
de vendas dos shoppings em 2025 foi o maior já registrado.
Os dados foram divulgados nesta quarta-feira, 4, pela Abrasce e são nominais,
isto é, não descontam a inflação.
Humai considerou o desempenho de 2025 positivo. “As vendas ficaram muito
próximas do que esperávamos para este ano. O crescimento de 1,6% foi
importante, ainda mais se comparado com outros setores, como a indústria, com
resultados abaixo. Então, estamos satisfeitos”, afirmou.
A taxa de ocupação média dos shoppings foi de 95,4%, um nível saudável e baixo,
avaliou Humai, que vê uma boa demanda de lojistas por espaços nos centros de
compra. “O que temos hoje é uma vacância técnica. Se o shopping estiver 100%
ocupado, não cabem novas lojas, nem chegadas de marcas”, ponderou.
O setor encerrou o ano de 2025 com 658 shoppings em atividade, distribuídos
por 253 cidades no Brasil. No último ano ocorreram dez inaugurações. A área
bruta locável (ABL) dos shoppings aumentou 0,9% no mesmo período, chegando
a 18,3 milhões de metros quadrados. Para este ano, estão previstas 11
inaugurações, segundo a Abrasce.
O número total de lojas no setor aumentou 1,2%, totalizando 124,7 mil em 2025.
A taxa de inadimplência dos lojistas foi a 4,3%, a menor da história, segundo a
Abrasce, o que mostra uma situação saudável dos comerciantes, na visão de
Humai. A quantidade de pessoas empregadas no setor subiu 0,9% no ano,
resultando em 1,082 milhões de empregados.
Por sua vez, o fluxo de visitantes mensais nos shoppings apresentou um recuo de
1% em 2025, atingindo 471 milhões de visitantes. O tempo médio de
permanência dos visitantes nos shoppings subiu para 80 minutos, um recorde. A
média dos últimos anos estava próxima de 73 minutos, enquanto na pandemia
ficou abaixo de 30 minutos. E o valor médio gasto pelos consumidores cresceu
de R$ 121 em 2024 para R$ 126 em 2025, alta de 4%.
A explicação para isso tem relação com o fato de que os shoppings se tornaram
um point de compras, alimentação, lazer, serviços (academia, clínicas, estética etc)
e um maior número de eventos, segundo Humai.
Expectativa para 2026
O faturamento dos shoppings em 2026 deve aumentar 1,4%, atingindo R$ 203,7
bilhões, de acordo com projeção da Abrasce. “Estamos animados, confiantes, mas
com cautela para 2026”, comentou Humai.
Pelo lado positivo, ele citou o cenário macroeconômico, marcado pela geração
de empregos, aumento da massa salarial e, principalmente, pela tendência de
queda dos juros — o que tende a impulsionar o consumo nos shoppings e os
investimentos em novas lojas.
O presidente da Abrasce afirmou ainda que o setor tende a se beneficiar do
aumento da isenção do imposto de renda para pessoas que ganham até R$ 5 mil,
o que acaba de entrar em vigor. “Isso vai gerar uma sobra de bilhões de reais no
orçamento das famílias, e uma parte disso deve ir para o varejo”, estimou o
presidente da Abrasce.
Neste ano, a Copa do Mundo também deve contribuir positivamente,
incentivando as vendas de materiais esportivos e eletrônicos, como televisão. O
horário dos jogos — que serão no começo da noite — também deve ajudar. “As
pessoas saem do trabalho e podem ir ver o jogo nos shoppings, ficando ali
depois. Se fosse no meio da manhã ou da tarde isso seria mais difícil”, comentou.
Segundo o presidente da Abrasce, os pontos que exigem cautela são o cenário
eleitoral no Brasil e os conflitos internacionais. “O rumo das eleições provoca
muita instabilidade e dúvida por aqui. E no cenário internacional, os EUA estão
colocando pressão em muitos países. Tem muita bravata, mas de todo modo, isso
causa muita insegurança entre investidores, cadeias produtivas e empresas”, disse
Humai.